"Lançado em 1999, o livro As vantagens de ser invisível logo
se tornou sucesso de público entre os jovens nos Estados Unidos. De alguma
maneira, a forma como o autor captou o espírito opressor das relações sociais
que preenchem os corredores do chamado High School - e a sensibilidade daqueles
que não estão exatamente no topo da pirâmide do que hoje foi diagnosticado como
bullying - o colocou no hall dos clássicos juvenis contemporâneos. Em 2012, a
obra foi adaptada para o cinema justamente em uma época em que ser excluído
virou moda. Nada mais popular do que ser nerd: a chamada cultura geek é cada
vez mais consumida. Um panorama um pouco diferente dos anos 1990, quando os
desajustados ainda não encontravam na mídia uma representação heroica de sua
condição de vida. Mais do que hoje, quando o bullying é podado pelo
politicamente correto, há 20 anos a escola era lugar de encarnação de
estereótipos e campo de sobrevivência.
O longa-metragem é bonito de se ver. Com atuações marcantes
de jovens talentos – tem Emma Watson num papel bem diferente do que encarnou
durante dez anos (a Hermione de Harry Potter) – o filme conta a história de
Charlie (Logan Lerman), um calouro do Ensino Médio tímido, inteligente,
sensível, que tenta fazer amigos em um ambiente hostil. Já que o seu antigo se
matou com um tiro, poucos meses antes. Nessa jornada, se apaixona por Sam (Emma),
uma veterana que na verdade gosta de um cara mais velho. Mesmo com o
contratempo, ficam amigos por intermédio de Patrick (Ezra Miller), também
terceiranista, objeto de chacota da corja dos “populares” (líderes de torcida e
jogadores de futebol americano, como dita o clichê). Após uma brincadeira em
sala, Patrick passa a ser chamado de Nada.
Na contagem regressiva dos dias até o momento em que se
formarão, os três habitam um mundo a parte. Recheado de drogas, música
alternativa e amigos esquisitos, que se enquadram em papéis bem demarcados do
cenário estudantil constituído por rótulos das mais variadas espécies. Tem
Alice, loirinha que curte vampiros e pretende virar cineasta; Mary Elizabeth,
CDF de cabelo raspado que é meio punk, meio budista. Bob, o maconheiro que vive
numa realidade paralela. Durante a narrativa que, segundo Stephen Chbosky, diretor, roteirista e também autor do livro
homônimo, é meio autobiográfico, Charlie enfrenta o amadurecimento pessoal e
cresce enquanto sujeito, enfrentando seus problemas e lidando com o amargor do
amor não correspondido. Ao fim do ano, os novos amigos vão para a faculdade e
ele precisa aprender a lidar, novamente, com a perda. Charlie teve uma vida
marcada por tragédias e identifica em Sam traços de sua tia falecida, da qual
era muito próximo.
Em entrevista a um site de crítica de cinema, Chbosky conta
que As vantagens de ser invisível nasceu quando tinha vinte e poucos anos e
estava passando por um período triste de sua vida. Após terminar um
relacionamento amoroso. Queria contar uma história que começou a surgir na
adolescência, sobre um menino que olha fixamente para uma menina e se apaixona
por ela. No momento difícil de sua vida, queria saber “porque pessoas boas se
deixam ser tratadas de forma tão ruim”, uma ideia que, inclusive permeia todo o
filme. A resposta, segundo ele, que, aliás, é incorporada na fala do professor
de literatura de Charlie, é que “as pessoas aceitam o amor que acham que
merecem ter”.
Assim como Charlie, Chbosky tentou se convencer da máxima
enquanto escrevia a obra: estava passando por um momento difícil, após o
término de um namoro. Para algumas
pessoas, o fim de um vínculo amoroso é um evento sombrio de que resulta em um
longo período de extremo amargor. Momento de tristeza profunda, no qual há uma
“perda de interesse pelo mundo externo”, como observou Freud no pequeno porém
denso ensaio Luto e melancolia. Segundo Freud, a melancolia – o sofrimento que
sucede à perda de uma pessoa amada – é
semelhante ao do luto, compartilha do mesmo estado de espírito “penoso” e da
“incapacidade de adotar um novo objeto de amor”. Faz parte do processo de
superação, tanto de um quanto do outro, a elaboração do trauma. Tanto Chbosky
quanto Charlie encontram na literatura uma forma de expressar o sofrimento e se
recuperar dele, em momento de extrema dificuldade. No caso de Charlie, mesmo
depois de anos, ardia com a morte da tia amada. Depois, o sentimento veio à
tona quando rejeitado por Sam.
Tentando se livrar do trauma passado e da angústia doentia
subsequente, Charlie se esforça para mostrar à Sam que ela merece ser tratada
de forma doce. O caminho é longo, acompanha o amadurecimento juvenil e cria
laços fortes com quem experimenta a narrativa. As vantagens de ser invisível é
profundo, divertido, real. Desperta a simpatia de toda uma geração que
presenteava a pessoa amada com fitas de música gravadas à mão; ou da geração
que, mesmo sem ter passado por isso, entende como são ardilosos os dilemas
existenciais da puberdade."
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